GRAÇA SANTIFICANTE E GRAÇA ATUAL
Para compreender como os Sacramentos agem em nossa alma, precisamos entender o que é a graça santificante, que nos eleva à vida sobrenatural, e o que é a graça atual, com a qual Deus nos ilumina.
Para o ser humano alcance a beatitude celeste, é preciso que se purifique da mancha do pecado e tenha a sua natureza elevada, o que se faz pela graça, que é, ao mesmo tempo, sanante e elevante.
Para entendermos melhor a mudança que a graça realiza em nossa natureza, tomemos um exemplo. Imagine uma charrete puxada por um único cavalo. É, bem ou mal, um veículo. Imagine que a charrete se torne um carrão. Houve aí não só melhora do primeiro para o segundo, como se a charrete, bem equipada, tivesse se tornado uma Ferrari. Houve uma transformação completa. O primeiro veículo era puxado por um animal; o outro move-se automaticamente. A natureza do carro em relação à da charrete é, por assim dizer, sobrenatural.
É isso o que, em primeiro lugar, faz conosco a graça — graça santificante ou habitual, em termos teológicos. No estado natural, somos a charrete; ao toque da graça, tornamo-nos o possante. Em outras palavras, a graça faz com que passemos do natural para o sobrenatural.
Voltando ao exemplo: parados, a zero quilômetros por hora, a diferença da carroça para o carro é apenas exterior. Porém, quando arrancam, percebe-se no carro uma capacidade que a charrete não possui. O carro tem uma potência infinitamente maior.
Queremos dizer com isso que a graça santificante nos dá essa potência, esse meio de ação que é vedado a quem esteja no pecado. Podemos avançar no caminho da santidade a bordo de uma super máquina, em velocidade inalcançável a quem só tem a seu dispor a carroça e o pangaré.
Ainda no exemplo da charrete e da Ferrari. É possível que dois sujeitos tenham a mesma Ferrari, com o mesmo motor, a mesma potência e os mesmos recursos de direção. Um deles sempre a utiliza, explorando bastante de sua capacidade; o outro, sequer a tira da garagem; deixa o carrão todo o tempo parado, sem um pingo de combustível. O primeiro chegará à sua meta; o segundo, jamais.
Queremos dizer que a graça santificante não garante a santidade. O que ela nos dá é a potência; a condição sem a qual não podemos avançar no caminho da perfeição. Mas um carro só anda se estiver abastecido com o combustível que lhe é próprio.
Quer dizer, para cada veículo, há um combustível adequado. O nosso, o que vai nos mover na senda da santidade, o que fará girar o motor engendrado pela graça santificante e nos levará a agir conforme a fé, a esperança e a caridade, é a chamada GRAÇA ATUAL ou intervenção divina, que se obtém por meio da constante oração, da meditação e dos demais exercícios de piedade.
A graça atual, vale dizer, é mais ampla que a graça santificante. Um pagão, por exemplo, pode receber um toque de Deus, uma iluminação, um sopro.
Vejamos, então, como o Concílio de Trento os define: “Pelos sacramentos, começa toda verdadeira justiça e, uma vez começada, é aumentada, ou, se perdida, é restaurada”.
Quer dizer, os sacramentos não só produzem a justificação, por meio da graça santificante, como também servem para aumentá-la ou para restituí-la. Ou seja, certos sacramentos criam o motor, e outros o restauram quando necessário.
Note, portanto, que os sacramentos dispensam, cada um deles, graças específicas. Não fosse assim, bastaria só um, em vez de sete. Além disso, cada sacramento nos dá a possibilidade de receber graças atuais que, de algum modo, ficam a ele atreladas. Por exemplo: quem recebe o sacramento do Matrimônio se abre, para sempre, a graças atuais necessárias a esse estado de vida. Outras são as graças devidas a quem tenha recebido o sacramento da Ordem.
A passagem da charrete para carroça, essa mudança do natural para o sobrenatural, quem a realiza são propriamente dois sacramentos: o Batismo e a Confissão. São eles que nos conferem a chamada graça primeira: o Batismo realizando a justificação; a Confissão restaurando-a. Só eles têm o condão de nos tirar da Morte para a Vida . Por isso, na linguagem escolástica tradicional, eles são chamados de “sacramentos dos mortos”.
Os outros sacramentos não têm por função conferir a graça primeira; conferem, portanto, a graça segunda. São, por isso, os “sacramentos dos vivos”, próprios àqueles que já estão em estado de graça, vivos em espírito. É assim com a Crisma, a Eucaristia, o Matrimônio e a Ordem.
É por isso que receber qualquer desses sacramentos fora do estado de graça — ou seja, sem o Batismo e sem a Confissão, se necessária — é um sacrilégio e, portanto, pecado grave.